sábado, 26 de fevereiro de 2011

Fatores importantes para a escolha da carreira pública


Caro colega concurseiro, 

Ser aprovado em um concurso público é fato mais ou menos certo para aquele que realmente se propõe a fazê-lo. Variará, para cada candidato, o tempo necessário para alcançar o êxito, mas o resultado já é possível antever: quem não desiste passa!

A maior incerteza do concurseiro deveria ser acerca de qual concurso fazer. Sim, porque a escolha da carreira trará consequências duradouras e, por que não dizer, muitas vezes devastadoras também, em sua vida. 

É verdade que sempre é possível recomeçar. Outros concursos estão sempre com “edital na praça”, esperando quem se candidate. Não obstante, não é assim tão simples, especialmente se você já está em uma carreira satisfatória (de uma forma geral). Se você ganha relativamente bem, se já tem a sua tão sonhada estabilidade, e muitas vezes já aumentou a família em função disso, não é fácil começar um novo projeto de estudos, a fim de se aventurar em outra carreira. Além da tendência natural do ser humano à acomodação, ainda bate sempre aquele receio de que tudo sempre pode piorar

Neste sentido, o concurseiro “profissional”, assim considerado aquele que vive de prestar concursos até atingir o patamar profissional que almeja, sofre menos deste mal. Salvo algumas exceções, o candidato típico deste grupo é jovem, concluiu recentemente a graduação (ou ainda está concluindo) e normalmente é solteiro. Nesta fase da vida as mudanças (em todos os sentidos) são mais viáveis, e a disposição para enfrentar regiões de fronteira, milhares de quilômetros de distância da família, entre outras adversidades, é maior.
Para aquele que pretende acertar “de primeira”, ou seja, mira um concurso como sendo o escolhido, a triagem deve ser mais rigorosa. 

E a proposta deste artigo é colocar em pauta esta escolha, bem como alguns dos fatores que a definem.
Há alguns dias um aluno me enviou um e-mail dizendo que estava em dúvida sobre dois cargos do TRF da 1ª Região, a saber, AJAJ e AJEM. Ele não sabia para qual dos dois cargos se inscreveria, e pediu minha opinião acerca de qual teria maiores possibilidades de abertura de vaga (tendo em vista que o concurso em referência é apenas para cadastro de reserva).  

Respondi (ao aluno) que eu não tinha ideia sobre a probabilidade de abertura de vagas para estes cargos, mas que eu não escolheria pelas vagas, e sim pelo trabalho, que é muito diferente nos dois cargos.  Um deles haveria de ter um perfil mais próximo daquele do candidato, o que facilitaria para as coisas, talvez, para o resto de sua vida.  

O fato é que a maioria dos concurseiros, aí incluídos os eventuais, se preocupam muito menos com a carreira em si que com os fatores objetivos explícitos, diríamos assim. Basicamente, se preocupam com salário e vagas. 

É claro que estes fatores são importantes, especialmente diante da história de vida de cada um. Só você sabe onde aperta o seu calo, é verdade. Mas existe, além da necessidade real, certa alienação do candidato acerca do exato significado daquilo que pretende escolher como carreira. 

Em primeiro lugar, digo a você que a remuneração dos cargos do serviço público é cíclica. Um cargo em alta hoje certamente teve seus momentos de desvalorização, e vice-versa. É claro que existe uma espécie de hierarquia, de forma que algumas carreiras são sempre mais prestigiadas, mais valorizadas. Mas, dentre as carreiras de uma mesma hierarquia, a remuneração oscila com o tempo. 

Para comprovar o que digo com números, preparei uma planilha comparativa da evolução da remuneração de alguns cargos públicos do Poder Executivo Federal, no período compreendido entre julho/1998 e julho/2010. A base de dados foi obtida a partir das Tabelas de Remuneração dos Servidores Públicos Federais, disponíveis em http://www.servidor.gov.br/publicacao/tabela_remuneracao/bol_remuneracao.htm.

Infelizmente não foi possível inserir neste comparativo dados do Poder Judiciário, do Poder Legislativo ou do Ministério Público, tendo em vista que apenas o Governo Federal divulga periodicamente os dados referentes à remuneração de pessoal. Em tempos de transparência na gestão pública, infelizmente “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que os outros”, como diria George Orwell. 

Segue a planilha:



CARGO
jul/98
ago/01

MENOR
MAIOR
MENOR
MAIOR
Auditor-Fiscal da Receita Federal
      4.439,01
      4.718,70
      3.132,56
      6.136,21
Analista da Receita Federal (antigo Técnico)
      2.026,08
      2.238,80
      1.285,34
      2.517,79
Auditor-Fiscal do Trabalho 
      4.439,01
      4.718,70
      3.132,56
      6.136,21
Analista do Banco Central
      2.666,52
      7.397,87
      3.714,39
      7.611,44
Procurador do Banco Central
      2.666,52
      7.397,87
      3.894,75
      7.611,44
Advogado da União
      4.547,31
      5.165,30
      3.446,15
      7.080,24
Procurador Federal (AGU)
      2.952,49
      5.165,30
      3.446,15
      7.080,24
Procurador da Fazenda Nacional
      5.193,57
      5.452,72
      5.193,57
      5.452,72
Defensor Público da União
      4.535,16
      5.139,09
      3.446,15
      7.080,24
Analista de Finanças e Controle
      2.505,19
      3.855,45
      2.869,59
      6.735,32
Técnico de Finanças e Controle
          912,35
      1.649,41
      1.177,50
      2.201,70
Diplomata
      3.538,11
      5.427,52
      3.538,11
      4.624,64
Delegado da Polícia Federal
      3.980,61
      4.719,85
      7.563,17
      8.967,71
Perito da Polícia Federal
      3.980,61
      4.719,85
      7.563,17
      8.967,71
Agente da Polícia Federal
      2.084,35
      3.056,57
      3.960,26
      5.807,48
Escrivão da Polícia Federal
      2.084,35
      3.056,57
      3.960,26
      5.807,48
Policial Rodoviário Federal
      1.135,68
      2.921,92
      1.970,80
      3.927,01

CARGO
dez/04
dez/06

MENOR
MAIOR
MENOR
MAIOR
Auditor-Fiscal da Receita Federal
      7.531,15
      9.928,31
   10.155,32
   13.382,26
Analista da Receita Federal (antigo Técnico)
      3.937,83
      5.182,09
      5.299,91
      6.974,87
Auditor-Fiscal do Trabalho 
      7.531,15
      9.928,31
   10.155,32
   13.382,26
Analista do Banco Central
      5.575,49
      9.333,13
      6.915,75
   11.206,89
Procurador do Banco Central
      6.163,34
      7.961,21
      9.500,00
   11.850,00
Advogado da União
      6.163,34
      7.961,21
      9.500,00
   11.850,00
Procurador Federal (AGU)
      6.163,34
      7.961,21
      9.500,00
   11.850,00
Procurador da Fazenda Nacional
      6.163,34
      7.961,21
      9.500,00
   11.850,00
Defensor Público da União
      6.163,34
      7.961,21
      9.500,00
   11.850,00
Analista de Finanças e Controle
      5.930,08
      8.391,44
      8.160,50
   11.325,09
Técnico de Finanças e Controle
      2.391,49
      3.366,02
      3.759,80
      5.200,71
Diplomata
      4.127,52
      7.100,63
      8.388,05
   11.325,09
Delegado da Polícia Federal
      7.863,80
   10.426,46
   10.862,14
   15.391,48
Perito da Polícia Federal
      7.863,80
   10.426,46
   10.862,14
   15.391,48
Agente da Polícia Federal
      4.422,10
      6.776,54
      6.200,00
      9.539,27
Escrivão da Polícia Federal
      4.422,10
      6.776,54
      6.200,00
      9.539,27
Policial Rodoviário Federal
      4.336,29
      6.243,81
      5.185,68
      8.110,72

CARGO
ago/08
jul/10

MENOR
MAIOR
MENOR
MAIOR
Auditor-Fiscal da Receita Federal
   10.155,32
   13.382,26
   13.600,00
   19.451,00
Analista da Receita Federal (antigo Técnico)
      5.299,91
      6.974,87
      7.996,07
   11.595,00
Auditor-Fiscal do Trabalho 
   10.155,32
   13.382,26
   13.600,00
   19.451,00
Analista do Banco Central
      7.082,40
   11.206,89
   12.960,77
   18.478,45
Procurador do Banco Central
   10.497,56
   12.900,42
   14.970,60
   19.451,00
Advogado da União
   11.238,98
   14.954,90
   14.970,60
   19.451,00
Procurador Federal (AGU)
   11.238,98
   14.954,90
   14.970,60
   19.451,00
Procurador da Fazenda Nacional
   11.238,98
   14.954,90
   14.970,60
   19.451,00
Defensor Público da União
   11.238,98
   14.954,90
   14.970,60
   19.451,00
Analista de Finanças e Controle
      8.484,53
   11.775,69
   12.960,77
   18.478,45
Técnico de Finanças e Controle
      3.907,79
      5.406,35
      4.917,28
      8.449,13
Diplomata
      8.721,18
   11.775,69
   12.962,12
   18.478,45
Delegado da Polícia Federal
   12.992,70
   19.053,57
   13.368,68
   19.699,82
Perito da Polícia Federal
   12.992,70
   19.053,57
   13.368,68
   19.699,82
Agente da Polícia Federal
      7.317,18
   11.528,11
      7.514,33
   11.879,08
Escrivão da Polícia Federal
      7.317,18
   11.528,11
      7.514,33
   11.879,08
Policial Rodoviário Federal
      5.238,94
      8.110,72
      5.804,95
   10.544,14

Obs.: em alguns casos houve redução do padrão inicial de algumas carreiras, o que se deve à prática de negociação de reajustes mediante transposição dos servidores que já estão na carreira, com reajustes maiores para os padrões mais altos e achatamento do piso.

Da planilha acima se observa facilmente que alguns cargos tiveram uma valorização substancialmente superior à dos demais, em apenas 12 anos. Como quem está entrando no serviço público terá, em média, uns 30 anos pela frente na carreira, certamente muitas oscilações ainda ocorrerão. 

Tome-se como exemplo o cargo de Policial Rodoviário Federal, cujos vencimentos iniciais, em julho/1998, eram equivalentes a aproximadamente 25% do vencimento dos Auditores-Fiscais (do Trabalho e da Receita), e em julho/2010 a proporção subiu para 43%. 

Da mesma forma, as carreiras jurídicas tinham vencimentos distintos, os quais hoje são uniformes e superiores (padrão inicial) aos de outras carreiras consideradas de Estado, como Auditoria e Polícia Federal. 

A conclusão a que se chega é que, se em um mesmo “Poder”, com diretrizes administrativas mais ou menos uniformes, há tanta variação, imagine se compararmos com os outros “Poderes”. Em outras palavras, o que está ruim hoje pode ser a vedete de amanhã, e vice-versa. 

No tocante ao número de vagas, é importante aumentar as probabilidades estatísticas de aprovação, mas em geral a estratégia se mostra infrutífera. Isto porque os concursos que têm mais vagas contam com maior número de concorrentes de alto rendimento, o que retira exatamente aquilo que seria uma vantagem. Os antigos concursos regionalizados da Receita Federal comprovam esta tese. 

Resta ao candidato avaliar, também, fatores importantes sobre a carreira que pretende escolher, tais quais perfil adequado para o exercício da função, horário de trabalho (mais rígido ou mais flexível), opções de lotação, possibilidades de desenvolvimento pessoal e profissional, etc. 

Em tempo, sei que é difícil obter informações precisas sobre estes aspectos de cada carreira. Para isso, os fóruns são ótimos. Recomendo o Fórum Concurseiros para a área fiscal e o fórum do Correio Web para a área jurídica. 

Abraço e bons estudos!

Ricardo Resende
ricardoresendeprof@gmail.com

2 comentários:

  1. De fato Resende, escolher concursos pelo salário nem sempre é bom.
    Esse é meu desafio: saber escolher. Estou no Judiciário (TRT 15) a 6 anos e quero sair. Trabalhar em ambiente fechado (Vara ou Administrativo) não é minha praia, é fresco e político demais. Quero "rua" OFJ ou Auditor.
    Estou na fila para o próximo AFT.


    Alexandre

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  2. É isso aí, Alexandre. Se você quer calor, poeira, chuva e nada de monotonia, AFT é a sua praia...

    Abraço e bons estudos!

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